Apesar das controvérsias em relação ao conflito no Oriente Médio, o Banco Central (BC) diminuiu os juros pela segunda vez consecutiva. De forma consensual, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Taxa Selic, juros fundamentais da economia, em 0,25 pontos percentuais, para 14,5% ao ano. A decisão era aguardada pelo mercado financeiro.
De junho de 2025 a março deste ano, a Selic permaneceu em 15% ao ano, o nível mais elevado em quase duas décadas. O Copom reduziu os juros novamente na reunião anterior, em um cenário de declínio da inflação. Entretanto, o conflito no Oriente Médio, que resultou no aumento dos preços dos combustíveis e dos alimentos, complica a atuação do Copom.
O Copom enfrentará ausências devido ao término do mandato dos diretores de Organização do Sistema Financeiro, Renato Gomes, e de Política Econômica, Paulo Pichetti, no final de 2025. Até o momento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não encaminhou as indicações dos substitutos ao Congresso Nacional.
Na reunião deste mês, haverá mais uma ausência. Na terça-feira (28), o Banco Central comunicou que o diretor de Administração, Rodrigo Teixeira, estará ausente devido ao falecimento de um parente de primeiro grau.
O Copom, em comunicado, não forneceu indicações sobre a trajetória dos juros. A mensagem informou que está acompanhando o conflito no Oriente Médio e os impactos de uma possível prolongação na inflação.
“Neste momento, as previsões de inflação estão mais distantes em relação à meta no prazo relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza quanto a essas projeções aumentou consideravelmente, devido à falta de clareza sobre a duração dos conflitos e seus efeitos nos determinantes dos modelos de projeção analisados”, ressaltou o comunicado.
Inflação
A Selic é o principal mecanismo do Banco Central para controlar a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A prévia da inflação oficial pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) aumentou para 0,89% em abril. No acumulado de 12 meses, o índice subiu para 4,37%, ante 3,9% em março.
O IPCA cheio de abril será divulgado somente em 12 de maio.
Pelo novo sistema de meta perene, em vigor desde janeiro de 2025, a meta de inflação a ser perseguida pelo BC, estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, o limite inferior é 1,5% e o superior é 4,5%.
No modelo de meta perene, a meta é calculada mensalmente, levando em consideração a inflação acumulada em 12 meses. Em abril de 2026, a inflação desde maio de 2025 é confrontada com a meta e a margem de tolerância. Em maio de 2026, o procedimento se repete, com cálculo a partir de junho de 2025. Dessa maneira, a verificação se desloca ao longo do tempo, não mais limitada ao índice fechado de dezembro de cada ano.
No último Relatório de Política Monetária, divulgado no final de março pelo Banco Central, a autoridade monetária elevou, de 3,5% para 3,6%, a previsão do IPCA em 2026, porém a estimativa será revista, devido ao comportamento do dólar e da inflação. A próxima edição do documento, que substituiu o antigo Relatório de Inflação, será divulgada no final de junho.
As projeções do mercado são mais pessimistas. Segundo o boletim Focus, pesquisa semanal com instituições financeiras divulgada pelo BC, a inflação oficial deverá encerrar o ano em 4,86%, acima do teto da meta, de 4,5%. Antes do início do conflito no Oriente Médio, as estimativas do mercado estavam em 3,95%.
Crédito mais acessível
A redução da taxa Selic impulsiona a economia. Isso acontece porque juros mais baixos diminuem o custo do crédito e estimulam a produção e o consumo. Por outro lado, taxas menores complicam o controle da inflação. No último Relatório de Política Monetária, o Banco Central manteve em 1,6% a previsão de crescimento da economia em 2026.
O mercado prevê um crescimento um pouco mais positivo. Conforme a última edição do boletim Focus, os analistas econômicos estimam expansão de 1,85% do PIB em 2026.
A taxa primária de juros é utilizada nas transações de títulos públicos no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) e serve de referência para as demais taxas de juros da economia. Aumentando-a, o Banco Central controla o excesso de demanda que pressiona os preços, pois juros mais elevados encarecem o crédito e incentivam a poupança.
Ao reduzir os juros básicos, o Copom barateia o crédito e estimula a produção e o consumo, porém enfraquece o controle da inflação. Para diminuir a Selic, a autoridade monetária precisa ter certeza de que os preços estão estabilizados e não correm o risco de subir.
Fonte: Agência Brasil


