De fevereiro de 2023 a abril de 2026 a falta de pagamento do consumidor causada pelos jogos eletrônicos retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. O valor representa o total de vendas nos períodos festivos de Natal de 2024 e 2025.
O aumento dos gastos dos cidadãos brasileiros com as plataformas digitais nesse período foi superior a R$ 30 bilhões a cada mês. O assim chamado “diversão” impactou a capacidade de ganho para cumprir os compromissos financeiros em dia e podem ter levado 270 mil famílias a uma condição de “inadimplência severa” – impossibilidade de realizar pagamentos marcada por atrasos de 90 dias ou mais.
As projeções são da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Segundo a instituição empresarial, “os jogos eletrônicos não são apenas sobre diversão; representam um risco em escala para a estabilidade financeira das famílias, sugando recursos que seriam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo.”
A análise da confederação é que a falta de pagamento resultante dos gastos com os jogos eletrônicos tem impacto sobre o consumo e as vendas do comércio varejista. De acordo com o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, “a tendência” é que em momentos de aperto financeiro das famílias despesas não essenciais e até mesmo essenciais sejam “sacrificadas.”
Sem telefone novo
“Podem optar por não trocar de telefone ou deixar de adquirir uma peça de vestuário devido ao agravamento de sua dívida”, exemplifica Bentes, que apresentou nesta terça-feira (28) em Brasília análise econométrica (estatística e matemática) em dados coletados pela própria CNC e provenientes do Banco Central.
De acordo com a avaliação da confederação, os efeitos dos jogos eletrônicos sobre o endividamento – que interfere na capacidade de consumo – variam conforme o grupo demográfico. “Homens, famílias de menor renda [até 5 salários mínimos], indivíduos mais maduros (35+ anos) e aqueles com maior nível de escolaridade (2º grau+) estão mais suscetíveis aos impactos das apostas.”
As despesas com as apostas em plataformas digitais podem afetar até mesmo famílias com renda mais alta, que conforme a CNC, “desviam recursos para os jogos e deixam de cumprir obrigações”, resultando em atrasos e também em falta de pagamento.
“Os jogos afetam principalmente as famílias mais vulneráveis, aumentando sua dívida total, enquanto para os mais abastados funcionam como alternativa a outras formas de dívida, embora também gerem inadimplência”, descreve apresentação da entidade.
Restrições ao mercado
O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, defende a implementação de políticas públicas reguladoras para as plataformas e de defesa dos consumidores.
Em comunicado à imprensa, ele afirmou que as apostas online estão impactando a renda das famílias brasileiras. “O impacto já não é mais pontual e passou a ser macroeconômico. É necessário discutir os limites desse mercado, especialmente no que diz respeito à propaganda e à segurança das famílias brasileiras.”
Conforme a CNC, oito em cada dez famílias (80,4%) estão endividadas no Brasil. O índice é próximo aos 78% verificados no final de 2022. Entre 2019 e aquele ano, a proporção de famílias endividadas subiu quase 20 pontos percentuais.
Aviso
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa as plataformas de apostas eletrônicas que operam legalmente no Brasil, enviou ontem (27) notificação formal à CNC exigindo “clareza metodológica” e “acesso completo” às bases de dados utilizadas pela entidade para avaliar o impacto dos jogos no endividamento das famílias.
Para o IBJR, versões anteriores do estudo partiram de “premissa totalmente discrepante com os dados oficiais.” Conforme o instituto, “as conclusões divulgadas pela CNC são alarmantes e vão de encontro diretamente com as métricas oficiais.”
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também declarou que os números apresentados pela CNC “não condizem com os dados oficiais do governo e do setor.”
Segundo a associação, a CNC ignora “a natureza multifatorial do endividamento dos brasileiros.”
Artigo ampliado às 21h29 para acrescentar posicionamento da ANJL
Fonte: Agência Brasil


