As ideias de diminuição do tempo de trabalho no Brasil, em andamento na Câmara dos Deputados, têm mobilizado estudiosos sobre os possíveis efeitos da medida na economia, com o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso, conhecida como 6×1.
De um ponto de vista, análises de entidades que representam os empregadores, as chamadas confederações empresariais, preveem queda no Produto Interno Bruto (PIB) e aumento da inflação.
Por outro ângulo, estudos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) descrevem um cenário distinto, com impactos limitados atingindo apenas alguns setores, além da geração de mais postos de trabalho e eventual elevação do PIB.
Segundo a economista da Unicamp Marilane Teixeira, a discrepância entre as pesquisas sobre os custos econômicos da redução da jornada acontece devido ao fato de o debate não ser meramente técnico, mas político.
“Grande parte da literatura econômica que trata do assunto baseia-se em modelos que assumem, como padrão, que qualquer diminuição na quantidade de horas trabalhadas resultará, inevitavelmente, na redução da produção e da renda – ignorando, assim, os ajustes dinâmicos que historicamente acontecem no mercado de trabalho”, aponta.
Membro do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesite), Marilene defende que a resistência à redução da jornada, por parte dos empregadores, pode resultar em projeções alarmistas.
“Do ponto de vista dos empregadores, obviamente, qualquer alteração é vista a partir de seu empreendimento. Eles não enxergam a economia de forma global, mas isso traz benefícios para toda a sociedade”, acredita.
Previsões
Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima uma redução de R$ 76 bilhões no PIB brasileiro (-0,7%) com a diminuição da jornada das atuais 44 para 40 horas. Na indústria, o PIB cairia 1,2%.
“Nossa indústria perderá participação no mercado interno e internacional, devido à queda nas exportações e ao aumento nas importações”, destaca o presidente da CNI, Ricardo Alban.
Já a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que reúne empresários desses setores, afirma que a redução da jornada aumentaria os custos sobre a folha salarial em 21%. A estimativa da CNC menciona que o repasse de preços ao consumidor poderia chegar a 13%. A CNI prevê aumentos nos preços de 6,2%, em média.
“Sem redução dos salários nominais, prevê-se impactos significativos sobre a rentabilidade da atividade comercial no Brasil”, afirma a CNC.
Custos x benefícios
O relatório do Ipea alega que o aumento nos gastos das empresas com os trabalhadores, em decorrência da redução da jornada, não ultrapassaria os 10%, nos setores mais impactados. Em média, estima-se um custo adicional do trabalho de 7,8%.
No entanto, considerando o custo total das empresas, que abrange o conjunto de despesas, o impacto da redução da jornada varia de 1%, em setores como comércio e indústria, a até 6,6%, no ramo de vigilância e segurança.
“Os resultados indicam que a maioria dos setores produtivos tem capacidade de absorver aumentos nos custos do trabalho, embora alguns segmentos demandem atenção especial”, afirma o estudo do Ipea.
A exceção seriam as empresas com até nove trabalhadores, que empregam cerca de 25% dos assalariados formais do país. Segundo o Ipea, esses negócios podem precisar de apoio estatal para transição à nova jornada de trabalho.
Um dos autores do estudo do Ipea, Felipe Pateo, declara que a análise da CNC não explica, “de modo transparente”, como chegaram ao aumento de 21% no custo do trabalho.
“Olhando apenas para o custo do trabalho em si, mostramos matematicamente que não há como esse aumento ser superior a 10% porque equivale exatamente às horas que o empregador perderá em relação ao trabalhador que faz 44 horas semanais”, afirmou.
A Agência Brasil tentou contato com a CNC para comentar sobre as discrepâncias, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.
Inflação dos preços





